UNESP 2018/2: Leia o trecho do conto O alienista

UNESP 2018/2: 2ª FASE - QUESTÃO 29 e QUESTÃO 30 Leia o trecho do conto  O alienista ¹, de Machado de Assis (1839-1908), para responder às ...
UNESP 2018/2: 2ª FASE - QUESTÃO 29 e QUESTÃO 30
Leia o trecho do conto O alienista¹, de Machado de Assis (1839-1908), para responder às questões 29 e 30.

Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.

Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, — graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção² e de Píndaro³.

— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio.

[...]
Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.

No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros.

[...]
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra!⁴ era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.

— Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade.

Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.
(O alienista, 2014.)

¹alienista: médico especialista em doenças mentais.
²Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português.
³Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia.
Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”.

QUESTÃO 29
a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no segundo parágrafos.
b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige diretamente ao leitor.

Resolução:
a) O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”.

b) Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, fazendo a interlocução com o receptor.

QUESTÃO 30

a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros” (5º parágrafo), substituindo os termos sublinhados por outros de sentido equivalente.
b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre” (3º parágrafo) em discurso indireto e em ordem direta.

Questão anterior:
Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às questões de 26 a 28.

Resolução (Objetivo):
a) “Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando, aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”.

b) Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se: A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo remédio.

Próxima questão:
- Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 31 e 32.

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