(PUC-SP 2019) No Texto I, o crítico literário Alfredo Bosi apresenta sua leitura a respeito da singularidade e da universalidade do Realismo

A seguir, no  Texto I , o crítico literário Alfredo Bosi associa a publicação, em 1881, de Memórias póstumas de Brás Cubas à inauguração de...
A seguir, no Texto I, o crítico literário Alfredo Bosi associa a publicação, em 1881, de Memórias póstumas de Brás Cubas à inauguração de uma nova fase na carreira literária de seu autor, Machado de Assis. No Texto II, excerto do capítulo “O verdadeiro Cotrim”, do mesmo romance, Brás Cubas descreve o caráter de seu cunhado Cotrim, ex-traficante de escravos. Leia os dois textos para responder às questões 69 e 70.

Texto I
A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto¹ e desfrutador Brás Cubas.
40. ed. São Paulo: Cultrix, 2002, p.177)

Texto II
Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. (...) Não era perfeito, decerto; tinha, por exemplo, o sestro² de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava, — sestro repreensível ou não louvável, concordo; mas ele desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas; razão a que se não pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto faço o seu maior elogio) que ele não praticava, de quando em quando, esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros; e se tal era o intuito, força é confessar que a publicidade tornava-se uma condição sine qua non³. Em suma, poderia dever algumas atenções, mas não devia um real a ninguém.
(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Ateliê, 2001, p. 224-225)

Vocabulário:
¹cauto: cauteloso, prevenido.
²sestro: vício.
³condição sine qua non: condição sem a qual não é possível o que se pretende

QUESTÃO 70
(PUC-SP 2019) No Texto I, o crítico literário Alfredo Bosi apresenta sua leitura a respeito da singularidade e da universalidade do Realismo praticado por Machado de Assis. É possível afirmar que, no Texto II, Brás Cubas confirma essa visão sobre a prosa realista machadiana, pois manifesta:

A) consciência da natureza contraditória do ser humano, capaz de feitos virtuosos e defeituosos.
B) compreensão da inocência inerente ao comporta- mento humano, defensável por suas virtudes.
C) constatação da conduta instintiva do ser humano, inconsciente dos efeitos de seus atos.
D) percepção da essência defeituosa do caráter humano, condenável por seus vícios.

QUESTÃO ANTERIOR:
(PUC-SP 2019) No Texto I, Alfredo Bosi destaca a particularidade do foco narrativo criado por Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas.

RESOLUÇÃO:
A banca examinadora equivoca-se muito ao considerar que o fragmento de Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta uma “consciência da natureza contraditória do ser humano, capaz de feitos virtuosos e defeituosos”. Esse excerto mostra que Cotrim utiliza-se de boas ações, a filantropia, preocupado essencialmente com a “sede de nomeada”, o “amor de glória”, ou seja, a busca pela fama.

Essa pretensa caridade, na verdade, não passa de máscara social, pois o fundamento do caráter de Cotrim é a perversidade e a vaidade, traficou escravos e é “ferozmente honrado”, como diz o narrador. Não há portanto uma convivência de virtudes e defeitos, como consignado na alternativa a. A resposta oficial dessa questão, a alternativa d, fere não só a lógica da resposta dada no teste 69, como também a extensa bibliografia crítica sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas que percebe nas profundas motivações humanas a vaidade, o cinismo, a futilidade e o desejo de glória.

Esse desvelamento de aspectos mesquinhos da essência humana é um dos temas mais relevantes da prosa machadiana, e é sintetizado na famosa frase do último capítulo: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. Valida-se, assim, a alternativa d.

GABARITO:
A) consciência da natureza contraditória do ser humano, capaz de feitos virtuosos e defeituosos.

PRÓXIMA QUESTÃO:
- (PUC-SP 2019) Em “Ingaia ciência”, o eu lírico de Carlos Drummond de Andrade revela-se.

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