SANTA CASA 2021: No poema em prosa, o eu lírico

SANTA CASA 2021: No poema em prosa, o eu lírico
Leia o poema em prosa “O enigma”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de 02 a 05.

As pedras caminhavam pela estrada. Eis que uma forma obscura lhes barra o caminho. Elas se interrogam, e à sua experiência mais particular. Conheciam outras formas deambulantes¹, e o perigo de cada objeto em circulação na terra.

Aquele, todavia, em nada se assemelha às imagens trituradas pela experiência, prisioneiras do hábito ou domadas pelo instinto imemorial das pedras. As pedras detêm-se. No esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo.

E na contenção desse instante, fixam-se as pedras — para sempre — no chão, compondo montanhas colossais, ou simples e estupefatos e pobres seixos desgarrados. Mas a coisa sombria — desmesurada, por sua vez — aí está, à maneira dos enigmas que zombam da tentativa de interpretação.

É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios. Carecem de argúcia alheia que os liberte de sua confusão amaldiçoada. E repelem-na ao mesmo tempo, tal é a condição dos enigmas.

Esse travou o avanço das pedras, rebanho desprevenido, e amanhã fixará por igual as árvores, enquanto não chega o dia dos ventos, e o dos pássaros, e o do ar pululante de insetos e vibrações, e o de toda vida, e o da mesma capacidade universal de se corresponder e se completar, que sobrevive à consciência. O enigma tende a paralisar o mundo.

Talvez que a enorme Coisa sofra na intimidade de suas fibras, mas não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação.

Ai! de que serve a inteligência — lastimam-se as pedras.

Nós éramos inteligentes; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.

Ai! de que serve a sensibilidade — choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom da misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.

Anoitece, e o luar, modulado de dolentes canções que preexistem aos instrumentos de música, espalha no côncavo, já pleno de serras abruptas e de ignoradas jazidas, melancólica moleza.

Mas a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura.
(Poesia 1930-62, 2012.)
¹deambular: andar à toa; vaguear, passear

QUESTÃO 02
SANTA CASA 2021: No poema em prosa, o eu lírico

(A) concebe uma narrativa sobre a origem da imobilidade das pedras.

(B) revela o modo como as pedras transformaram-se em enigmas.

(C) sugere que as pedras foram os primeiros seres em circulação no mundo.

(D) mostra que a história dos enigmas se confunde com a própria história das pedras.

(E) suspeita que as pedras possam provocar o colapso do mundo.

QUESTÃO ANTERIOR:

RESOLUÇÃO (Cursos Objetivo):
Nesse poema em prosa, o eu lírico concebe a causa da perda da sensibilidade e da mobilidade das pedras.Elas perderam o dom da misericórdia e barram o caminho.

GABARITO:
(A) concebe uma narrativa sobre a origem da imobilidade das pedras.

PRÓXIMA QUESTÃO:

QUESTÃO DISPONÍVEL EM:

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