CEFET-MG: A formulação que melhor exprime o principal assunto abordado pelo autor resume-se em:

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As questões de (01) a (08) referem-se ao texto abaixo.

O contexto limita a clareza

O escrito será considerado objetivo se for lido
segundo as regras do campo em que ele circula

As gramáticas, e alguns manuais de “ensino” ou uso da língua, insistem na clareza. Frequentemente, dizem que se trata de traços necessários em textos jornalísticos e empresariais. Um bom aluno ou aprendiz deve esforçar-se para dominar os mecanismos que produzam textos claros. Sugerem-se frases curtas, poucos adjetivos etc. Advérbios são vistos como pragas. Conselheiros de véspera de vestibulares e especialistas contratados por empresas vão todos na mesma direção.

Textos devem ser objetivos, é claro, sempre que seu objetivo é serem objetivos (o jogo de palavras é proposital; espero não ser considerado não objetivo). Melhor: devem ser objetivos se são textos destinados a circular em campos nos quais a objetividade é crucial. Por exemplo, em textos científicos e técnicos, a objetividade é esperada e sua falta cria problemas. Uma lei científica deve ser redigida com léxico e sintaxe que impeçam a ambiguidade, ou a diminuam o máximo possível. 

Ciência

Cientistas apelam para a linguagem matemática por diversas razões, e uma delas é que as línguas naturais podem gerar "problemas" de leitura que fórmulas não geram. Comumente, um texto científico só parece ser objetivo porque é lido segundo as regras do campo em que circula. Como a lei de Newton: "Matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias". Esta lei não é unívoca pelo fato de ser assim redigida, mas porque é lida por todos levando em conta certo contexto e com a cooperação do leitor, que lê o texto sem "voar".

Para perceber que a lei poderia ser considerada obscura, basta perguntar "de que massas ela fala?" e "a qual distância ela se refere"? A lei é clara porque é lida assim: "Matéria atrai matéria na relação direta das massas das matérias em questão e na relação inversa do quadrado das distâncias entre as matérias em questão". 

"Matérias em questão" significa mais ou menos "das matérias cuja relação está sendo medida num cálculo ou experimento x".

Além disso, sendo "massa" uma palavra com muitos sentidos, todos são descartados, exceto aquele que a palavra tem em física. Se a lei não fosse lida assim, poderíamos fazer cálculos considerando, por exemplo, a relação direta entre a massa de macarrão da nona e a massa da pizza que comemos ontem (nem daria boa piada, provavelmente). Ou seja: depois de "massas" e de "distância", a redação da lei de Newton supõe um leitor cooperativo, que fique na esfera de que se fala, a física, a astronomia, e não voe atrás de outros sentidos. Fazendo isso, ele completa o texto com "matérias em questão quando se quer fazer medição, excluindo todas as matérias irrelevantes para tal situação".

Mas nem todos os textos são leis científicas. Muitos são poemas, outros são piadas. Nestas, o sucesso do humorista depende quase sempre de ser capaz de encontrar uma ambiguidade onde outros estão convencidos de que o texto é claro e objetivo.

Bom exemplo é uma tira de Thaves (Estadão, C2, 10/1/2011):

- O que quer dizer "idade da pedra polida"?

- Deve ter sido quando os homens das cavernas começaram a aprender boas maneiras.  Estamos tão acostumados a ver em "idade da pedra polida" um sentido, que não imaginamos que possa ter outro. Lemos "idade" com sentido de "era", "época", "período" e "da pedra polida" como qualificativo de "idade" (um adjunto adnominal), com papel restritivo: é uma era entre outras. A representação "matemática" de sua estrutura poderia ser: [idade (da pedra (polida))], em que "polida" qualifica "pedra" e "da pedra polida" qualifica "idade". Ou seja, a expressão se refere a uma época da história humana caracterizada por certa tecnologia, que permitia produzir instrumentos de pedras alisadas (e não só lascadas, como em um período anterior). É a idade da pedra polida.

Polidez

A piada obriga a reinterpretar essa expressão, a dar-lhe outro sentido. Não é mais a pedra que é polida, mas uma idade, um período, que continua sendo "da pedra", mas seria também "da polidez". Pela nova interpretação, haveria uma "idade da pedra" (período) caracterizada pela polidez dos que viveram nela. Sua representação "matemática" seria: [((idade (da pedra)) polida], em que polida qualifica "idade da pedra", não mais "pedra", como na leitura anterior; de fato, qualifica o núcleo dessa expressão, "idade". Trata-se de uma "idade polida".

Outro exemplo é a leitura de uma receita de cozinha feita por uma criança. A etapa "colocar uma colher de sopa de açúcar" é compreendida por qualquer cozinheiro como tratando-se de acrescentar uma colher de certo tamanho e cheia de açúcar ao prato que está sendo preparado. Ou seja, "colher de açúcar" é um tipo de colher, definida pelo tamanho (pequena). Mas uma criança achou que seguia a receita da seguinte forma: "fazia" uma sopa de açúcar (misturando açúcar na água) e despejava uma colherada (não importa o tamanho da colher) da substância na panela. Ou seja, entendeu que deveria acrescentar uma colher cheia de um tipo de sopa (de açúcar), e não usar um tipo de colher para acrescentar açúcar. 

[...]

O importante é nos dar conta de que clareza é esperada em determinados gêneros, mas não em outros, nos quais, aliás, seria um problema. Não é para considerar a sério coisas assim que se estudam os gêneros?
POSSENTI, Sírio. In: Revista Língua Portuguesa. Disponível em:
<http://revistalingua.uol.com.br/ >. Acesso em 12 abr. 2011.

QUESTÃO 01
CEFET-MG: A formulação que melhor exprime o principal assunto abordado pelo autor resume-se em:

a) A objetividade cabe a alguns gêneros e não a outros.

b) Os textos científicos precisam ser objetivos e claros.

c) A ambiguidade tem função importante no gênero piada.

d) Os ensinamentos sobre textos são bastante generalistas.

GABARITO:
a) A objetividade cabe a alguns gêneros e não a outros.

RESOLUÇÃO:
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