O estatístico acordou e, como sempre o fazia, espiou pela janela. Céu nublado. Deveria levar o guarda-chuva?

O estatístico acordou e, como sempre o fazia, espiou pela janela. Céu nublado. Deveria levar o guarda-chuva?
Leia a crônica a seguir, retirada do livro Histórias que os jornais não contam, de Moacyr Scliar, e responda às questões 41 e 42.

Nesta enquete eleitoral a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. (23/10/2005)

O estatístico acordou e, como sempre o fazia, espiou pela janela. Céu nublado. Deveria levar o guarda-chuva? Com base em sua experiência pregressa, avaliou a possibilidade de chuva em 38%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Decidiu não levar o guarda-chuva, mesmo porque já havia esquecido três ou quatro no escritório.

A mulher dormia ainda e ele decidiu não acordá-la; professora universitária, ela tinha ficado até a meianoite corrigindo trabalhos. Merecia o descanso. E de repente uma pergunta lhe ocorreu: será que ainda se amavam? Qual era a possibilidade de que isso acontecesse depois de quinze anos, três meses e oito dias de casamento, depois de dois filhos, um com treze anos, seis meses e sete dias, outro com dez anos, dois meses e 20 dias? Poderia arriscar uma cifra, mas decidiu não fazê-lo, mesmo porque estava atrasado. Engoliu rapidamente o café (frio: cerca de 32 graus, concluiu, e não costumava errar: sua chance de acertar a temperatura dos líquidos era de cerca de 91%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos). Desceu para a garagem do prédio e entrou no carro, um velho Gol. O motor não quis pegar, e por um momento ele temeu que o automóvel o deixasse na mão. Mas as chances de que isso acontecesse eram de apenas 12%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e logo ele estava no trânsito, congestionado como sempre. Estimou a sua chance de chegar no horário em 72%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. De fato, às nove em ponto estava sentando à sua mesa.

Tinha várias pesquisas para examinar naquele dia. As chances de uma marca de sabão ser preferida em relação à outra, as chances de um candidato à presidência de empresa ser eleito em relação a outro. Um trabalho a que estava habituado e que em geral transcorria com facilidade; as chances de concluir a análise de uma pesquisa em duas horas e trinta e oito minutos eram de 83%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O fato, porém, é que uma pergunta o atormentava: será que ainda amava a esposa? Na semana anterior a empresa havia admitido uma nova estatística, moça simpática e linda que fizera balançar o seu coração.

Naquele momento o telefone tocou. Era a mulher: só queria dizer que o amava. E ele, jubiloso, concluiu que também a amava. As chances eram de 100%. Com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais, só para mais.
SCLIAR, Moacyr. Para mais ou para menos.
In: Histórias que os jornais não contam.
3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p.121-122.

UEL 2022 / QUESTÃO 41
Com base na crônica, assinale a alternativa correta.

a) Essa crônica, assim como a maioria das demais que integram o livro de Moacyr Scliar, destina-se ao comentário do texto que funciona como ponto de partida. Aqui, ao comentário de uma questão metodológica acerca de pesquisa eleitoral se soma a descrição da vida e da rotina profissional de um estatístico.

b) O texto que é ponto de partida para a crônica de Moacyr Scliar e o trabalho desempenhado na história transcrita são marcados pelo manejo de previsibilidade e de cálculos, entre outras questões. O texto do cronista aprofunda-se no plano narrativo, focaliza um estatístico como personagem e se detém sobre sua vida afetiva, redimensionando noções como risco e erro.

c) Ao contrário das crônicas que predominam no livro de Moacyr Scliar, esta é concentrada no registro de impressões e sensações suscitadas por acontecimentos banais de naturezas diversas. A subjetividade que daí emerge entra em choque com o teor frio, neutro e objetivo que se espera de um texto amparado em números.

d) O texto que serve de base para esta crônica de Moacyr Scliar é desprovido de elementos inusitados que dão origem a outras produções do autor incluídas no livro. É, no entanto, no processo de recriação conduzido pelo cronista, neste texto, que o inverossímil entra em cena com situações surpreendentes que desafiam as expectativas até do próprio estatístico.

e) Um ponto em comum entre essa crônica de Moacyr Scliar e o texto que lhe dá origem é a ênfase em perspectivas baseadas em cálculos. O fictício assume lugar de relevância na composição do autor quando surgem as brechas e os riscos que ameaçam a rotina repetitiva: o automóvel cujo funcionamento é irregular; e a contratação da moça para a empresa em que ele trabalhava.

QUESTÃO ANTERIOR:

GABARITO:
b) O texto que é ponto de partida para a crônica de Moacyr Scliar e o trabalho desempenhado na história transcrita são marcados pelo manejo de previsibilidade e de cálculos, entre outras questões. O texto do cronista aprofunda-se no plano narrativo, focaliza um estatístico como personagem e se detém sobre sua vida afetiva, redimensionando noções como risco e erro.

RESOLUÇÃO:
Esta crônica não é um comentário nem registro de impressões e sensações. Não se pode considerar que haja participação do inverossímil. A crônica inteira é fictícia e não apenas nas cenas do automóvel e da moça.

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