Prova Letras Português Bacharelado ENADE 2014 com Gabarito
Prova Letras Português Bacharelado ENADE 2014 com Gabarito
OBS: as questões de 01 a 08 são de Formação Geral, portanto, cobradas em todas as provas. Para conferir elas, basta acessar essa página.
CONHECIMENTO ESPECÍFICO
Texto para as questões 09 e 10
Restos
Minha Nossa Senhora do Bom Parto! O caminhão do
lixo já deve ter passado! Eu juro, seu poliça, foi nessa
lixeira aqui! Nessa mesminha! Eu vim catar verdura,
sempre acho umas tomate, umas cenoura, uns
pimentão por aqui. Tudo bonzinho, é só lavar e cortar
os pedaço podre, que dá pra comer... Aí quando eu
puxei umas folha de alface, levei o maior susto.
Quase desmaiei, até.
Eu, uma mulher assim fornida que nem o seu poliça
tá vendo, imagine: fiquei de pernas bambas. Me deu
até tontura. Acho que também por causa do fedor...
Uma carniça que só o senhor cheirando, pra saber.
Mas eu juro por tudo que é mais sagrado! Tinha
sim um anjinho morto nessa lixeira! Nessa aqui!
Coitadinho... Deve ter se esgoelado de tanto chorar.
A gente via pela sua carinha de sofrimento. Ele tava
com a boquinha aberta, cheinha de tapuru. Eu nem
reparei se era menino ou menina, porque eu fiquei
morrendo de pena... E de medo, também... Os olho...
É do que mais me alembro... Esbugalhados, mas com
a bola preta virada pra dentro, sabe? Ai! Soltei um
berro e saí correndo.
SERAFIM, L. Restos. 1o: SOUTO, A. Variação Linguística e texto
literário: perspectivas para o ensino. Cadernos do CNLE,
SEXIV, n.4, 1 4, 2010, p. 3310 (adaptado).
ENADE 2014 - QUESTÃO 09
Considerando a variedade linguística utilizada pela personagem do texto, avalie as afirmações a seguir.
I. A redução do verbo “estar”, como em “tá” e “tava”, é uma característica evidenciada na fala de sujeitos escolarizados e não escolarizados.
II. A eliminação da marca de plural, como em “os pedaço” e “pernas bamba”, é um traço das variedades linguísticas populares faladas e escritas.
III. A prótese do fonema /a/ em “alembro” é uma característica associada à história da língua portuguesa.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) III, apenas.
C) I e II, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 10
Considerando a linguagem utilizada no texto Restos, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I. A utilização do pronome oblíquo átono antes do verbo (próclise) no trecho “Me deu até tontura” é característica do português brasileiro, mas não abonada, para a língua escrita, pela gramática normativa.
PORQUE
II. As regras normatizadas de colocação pronominal não correspondem às tendências fonológicas do português brasileiro.
A respeito dessas asserções, assinale a opção correta.
A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
E) As asserções I e II são proposições falsas.
Texto para as questões 11 e 12
Na literatura de cordel, o texto narrativo funciona como um recurso de sociabilização dos “causos” populares contados através da oralidade e transcritos, com engenhosidade artesanal, pelos “poetas do povo”, os quais procuram evidenciar situações que levam tanto à reflexão quanto ao riso, transformando a mentalidade das pessoas e tornando-as mais humanas. O texto a seguir ratifica essa ideia.
O poeta é um repórter
De pensamento ligado
Ouvindo o que o povo diz
Fazendo todo apanhado
E sai contando na rua
Tudo quanto foi passado.
SIWA, M. C. Manoel Caboclo. São Paulo: Hedra, 2000.
ENADE 2014 - QUESTÃO 11
Com base no exposto, avalie as afirmações a seguir.
I. A literatura de cordel apresenta estrutura formal bem articulada.
II. No excerto, o poeta de cordel é comparado o repórter por trazer informações sobre os fatos cotidianos.
III. Por apresentar elementos narrativos, os recursos poéticos são pouco explorados na literatura de cordel.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) III, apenas.
C) I e II, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 12
A respeito da literatura de cordel e do poema Manuel Cabloco, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas,
I. No texto de literatura de cordel é estabelecida uma relação entre manifestação literária e manifestação cultural.
PORQUE
II. As situações narradas são capazes de tornar os sujeitos mais lúdicos.
A respeito dessas asserções, assinale a opção correta.
A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
E) As asserções I e II são proposições falsas.
ENADE 2014 - QUESTÃO 13
Verifica-se que a palavra “pena”, na primeira fala, foi empregada com o mesmo sentido que no seguinte trecho.
A) “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido” (Fernando Pessoa).
B) “Aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver pra sempre tão boba e perdida teria sido fatal” (Tati Bernardi).
C) “E pra deixar acontecer / A pena tem que valer /Tem que ser com você” (Jorge e Mateus).
D) “A primeira imagem que surge quando o assunto é pena são os pássaros” (Arte no Corpo).
E) “De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor” (Bíblia Sagrada - Salmo 45).
ENADE 2014 - QUESTÃO 14
Texto 1
Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. (...) Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto (...) as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. (..) E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela.
CORTÁZAR. O jogo da amarelinha. Trad. Fernando Castro Ferro. 14 ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009 (adaptado).
Texto 2
Ciência comprova a importância do beijo
Alguns cientistas acreditam que a união dos lábios evoluiu porque facilita a seleção de parceiros. “O beijo envolve uma troca bem complicada de informações — olfativa, tátil e de ajustes de postura — que costuma acionar mecanismos neurológicos sofisticados e também inconscientes, o que permite às pessoas determinar subjetivamente até que grau elas são geneticamente incompatíveis”, afirma o psicólogo evolucionista Gordon G. Gallup, professor da Universidade de Albany e da Universidade do Estado de Nova York. (...)
Dos 12 ou 13 nervos cranianos que afetam a função cerebral, cinco estão em ação quando beijamos e carregam mensagens de nossos lábios, língua, bochechas e nariz para o cérebro — que capta informações sobre temperatura, sabor, cheiro e movimentos de toda a situação. Parte dessa informação chega ao córtex somatossensorial, faixa de tecido na superfície cerebral responsável pela leitura das informações vindas do corpo.
Ciência comprova a importância do beijo. Disponível em:
<http://www.cmba.org.br>. Acesso em: 20 jul. 2014 (adaptado).
Os textos 1 e 2 apresentam, sob diferentes perspectivas, a temática do beijo. Nesse contexto, avalie as afirmações a seguir.
I. A utilização de palavras de cunho científico no texto 2, como “córtex somatossensorial”, dificulta o entendimento do texto pelo público leitor.
II. A expressão “a dor é doce”, no texto 1, é incoerente, uma vez que os vocábulos “dor” e “doce” estão relacionados à percepções sensoriais diferentes.
III. A presença de apenas uma citação, no texto 2, é prejudicial à argumentação do texto, que, por isso, perde credibilidade.
IV. O uso constante de palavras que se referem à 1º pessoa, no texto 1, reforça a subjetividade própria de um texto literário.
É correto apenas o que se afirma em
A) I.
B) IV.
C) I e III.
D) II e III.
E) II e IV.
Textos para as questões 15,16 e 17
Texto 1
Texto 2
A própria produção literária atual encaminha-se na direção de uma fusão com vários segmentos culturais, de que a chamada cultura de massa, tradicionalmente discutida em sua diferença negativa, constitui tão somente um dos aspectos de negociação em bases renovadas. A defesa exclusiva da literatura clássica e da herança nacional, um casamento expresso e legitimado pela construção e manutenção de repertórios recheados de um saber cultural canônico, no entanto, parece tão problemática quanto a sua rejeição global. Hoje circulam e prevalecem formas culturais mistas, e até os textos canônicos são relidos como pontos de cruzamento de discursos amplos, que transcendem as fronteiras tradicionais da esfera do literário e do horizonte de pertença a espaços nacionais linguística e geograficamente circunscritos.
OLINTO, H. K. Literatura/cultura/ficções reais. In: OLINTO, H. K.; SCHOLLHAMMER,
K. E Uiteratura e Cultura. Rio de Janeiro: EPUC, 2008, p. 75 (adaptado).
ENADE 2014 - QUESTÃO 15
Considerando a imagem e a citação, pode-se afirmar que a relação entre manifestações literárias contemporâneas e cultura
A) reelabora os valores culturais. Assim, a diversidade é transformada em unidade, à semelhança do que se observa na imagem.
B) apresenta começo e fim determinados. Assim, a imagem aponta diversidades culturais que existiram por um período preestabelecido.
C) desenvolve a diversidade cultural, à semelhança do que aponta a imagem, mas não transcende os valores canônicos tradicionais da esfera do literário.
D) estabelece a fusão entre diversos valores culturais. Os elementos apresentados na imagem são mais ou menos destacados, dependendo da literatura em que são referenciados.
E) torna a literatura contemporânea um modismo a partir dos cânones exclusivos das literaturas clássicas. Assim, contrapõe-se à imagem que aponta para diversos elementos culturais não canônicos.
ENADE 2014 - QUESTÃO 16
Tomando como referência os textos 1 e 2, avalie as afirmações a seguir.
I. A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade cultural recriada.
II. A literatura apropria-se de valores de diversos segmentos culturais, estabelece fusão entre eles e reelabora-os, por meio da língua, em formas estéticas.
III. A fusão estabelecida entre literatura e cultura tem por princípio apenas os valores culturais canônicos.
IV. A literatura canônica está inserida em formas culturais mistas que transcendem a esfera do tradicional.
É correto apenas o que se afirma em
A) I e II.
B) I e III.
C) III e IV.
D) I, II e IV.
E) II, III e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 17
Assinale a opção que melhor expressa as ideias desenvolvidas no texto 2.


ENADE 2014 - QUESTÃO 18
Estudos linguísticos têm mostrado que o português brasileiro apresenta particularidades que o distingue do português europeu, tais como:
1. Uso de relativas com pronome lembrete/resumitivo
Maria é uma pessoa que eu gosto muito dela.
2. Uso do pronome reto na posição de objeto
Gosto muito da Maria, mas eu não vejo ela há muitos anos.
3. Topicalização com pronome lembrete
A Maria, eu não vejo ela há muitos anos.
Com relação ao tema, avalie as seguintes explicações sócio históricas para esse distanciamento.
I. O multilinguismo do período colonial brasileiro, envolvendo as línguas portuguesa, africanas e indígenas.
II. A vinda da família real para o Brasil e sua instalação no Rio de Janeiro, relusitanizando a colônia.
III. O tráfico constante de africanos para trabalhar como mão de obra escrava e a aquisição do português como L2 a partir de diversos modelos.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 19
Os casos de interpretação ambígua em textos jornalísticos ocorrem muitas vezes porque o leitor só lê a manchete, não o texto total.
Considerando o exposto, avalie as manchetes transcritas a seguir.
I. Jovem tenta assaltar PM com arma de
brinquedo e é baleado na zona sul de SP.
(http://noticias.r7.com)
II. A ONU está à procura de um técnico para
ocupar o cargo de diretor daquele centro de
estudos sobre a pobreza que vai instalar no
Rio. (http://pagina20.uol.com.br)
III. Macarrão levou Eliza Samudio para ser morta
por amar Bruno, diz advogado do goleiro.
(http://noticias.uol.com.br)
IV. Governo inclui vacina contra hepatite
A no calendário de vacinação do SUS.
(http://g1.globo.com)
É correto afirmar que há ambiguidade apenas em
A) I e IV.
B) II e III.
C) III e IV.
D) I, II e III.
E) I, II e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 20
Paradigma pronominal do português brasileiro
Tn: DUARTE, |. e LEIRIA, |. (orgs.) Actas do Congresso Internacional
sobre o Português. v. 1l, 1996, p. 211-237 (adaptado).
Considerando o quadro do paradigma pronominal do português brasileiro, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I. No enunciado “Ela estava nervosa, porque o filho dela desmaiou de tanta fome”, o uso da combinação pronominal “dela” evidencia mudança no sistema pronominal brasileiro.
PORQUE
II. O uso do possessivo “seu” pode causar ambiguidade, dada a reestruturação no paradigma pronominal do português brasileiro, com a entrada do pronome “você” — oriunda da forma de tratamento “Vossa mercê” — como variante ou substitutivo do pronome “tu”.
A respeito dessas asserções, assinale a opção correta.
A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
E) As asserções I e II são proposições falsas.
ENADE 2014 - QUESTÃO 21
Recado ao senhor 903
1. Vizinho
2 Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou
3 acarta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria
4 visita pessoal — devia ser meia-noite — e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou
5 — desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito e, se não o fosse, o
6 senhora inda teria ao seu lado a lei e a polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno
7 e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao
8 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos
9 reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito a
10 leste pelo 1005, a oeste pelo 1001, ao sul pelo Oceano Atlântico, ao norte pelo 1004, ao alto pelo 1103
11 e embaixo pelo 903 — que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos;
apenas eu
12 e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos
13 agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das
14 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa
15 (perdão; ao meu número) será convidado a se retirar às 21h 45, e explicarei: o 903 precisa repousar das
16 22às7, pois às 8h 15 deve deixar o 783 para tomar o 109, que o levará até o 527 de outra rua, onde ele
17 trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável
18 quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus
19 algarismos. Peço-lhe desculpas — e prometo silêncio. ... Mas que me seja permitido sonhar com outra
20 vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse:
“Vizinho, são três horas da
21 manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse:
“Entra, vizinho, e come de meu
22 pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e
23 a lua é bela”. E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho
24 entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o
25 dom da vida, e a amizade entre os humanos, e o amor e a paz.
BRAGA, R. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978.
Em relação à crônica de Rubem Braga, avalie as seguintes afirmações a seguir.
I. Na linha 13, o modalizador “sinceramente” atribui valor de verdade ao enunciado, ao mesmo tempo em que marca a subjetividade e contribui para a construção da ironia, que permeia todo o texto.
II. Nas linhas 18 e 19, o operador argumentativo “mas” é empregado com funções diferentes nos trechos “não incomoda outro número, mas o respeita” e “Mas que seja permitido sonhar”. Na segunda ocorrência, funciona como reorientador argumentativo, quando o locutor, embora admitindo a realidade, passa a valorizar outra mais ideal e pertinente a seu modo de conceber as relações interpessoais.
III. Na linha 5, o autor usou o operador argumentativo “e”, no trecho “Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão”, para produzir o efeito de reforço das expectativas geradas no conteúdo do enunciado anterior, o que mantém a força argumentativa construída e marca a resignação do locutor em face da realidade vivida.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) III, apenas.
C) I e II, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 22
Com relação às estéticas literárias brasileiras, avalie as afirmações a seguir.
I. A mimese da natureza no Arcadismo é fiel e Objetiva, o que caracteriza a busca de realismo absoluto.
II. A objetividade é um dos aspectos relevantes da estética realista, que, portanto, rejeita o subjetivismo vindo do Romantismo ou do Arcadismo.
III. O cientificismo europeu adotado no Realismo foi o responsável por findar com todo o êxtase do culto à natureza presente no Romantismo, visto que os escritores daquela estética preferiam o ambiente urbano.
IV. A noção de natureza romântica é símile à noção árcade: a perfeição e a tranquilidade de um locus amoenus (local ameno), em referência, quase sempre, a ambiente bucólico e pastoril, com o objetivo de amenizar a realidade.
É correto apenas o que se afirma em
A) I e II.
B) I e IV.
C) II e III.
D) I, III e IV.
E) II, III e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 23
A respeito da linguagem, avalie as afirmações a seguir.
I. Nos pressupostos metodológicos do behaviorismo, há ênfase na observação de manifestações comportamentais, externas e mensuráveis da aprendizagem. Essa postura concebe a linguagem na sucessão de mecanismos de estímulo-resposta-reforço.
II. Os estudos de aquisição da segunda língua privilegiam as situações formais escolares, em que é possível a verificação dos processos de aquisição por adultos e crianças.
III. Ao adotar uma postura semelhante à do modelo inatista, o cognitivismo construtivista compreende a aquisição da linguagem como o resultado da interação entre o ambiente e o organismo, por meio de assimilações e acomodações no desenvolvimento da inteligência em geral.
IV. A abordagem interacionista considera os fatores sociais, comunicativos e culturais para a aquisição da linguagem como pré-requisitos básicos no desenvolvimento linguístico.
É correto apenas o que se afirma em
A) I e II.
B) I e IV.
C) II e III.
D) I, III e IV.
E) II, III e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 24
Talvez o maior lugar-comum da crítica literária no Brasil, hoje, seja o de que o texto é múltiplo. Simples assim: a multiplicidade como algo quase dado, uma característica praticamente a priori das obras, que a interpretação só precisaria atestar ou confirmar. Justamente por ser um lugar-comum, a crença em uma multiplicidade essencial ou ontológica da literatura não precisa ser ferrenhamente defendida; pelo contrário, ela funciona melhor quando permanece como uma espécie de pressuposto de fundo, frequentemente não declarado, do processo interpretativo.
A crença na multiplicidade está presente em todas essas frases, que parecem não precisar de explicação: “esta obra presta-se a infinitas leituras”; “são inúmeros os sentidos”; “há uma pluralidade de vozes”; ou até mesmo no nefasto “cada um tem a sua interpretação”. Trata-se aqui, na realidade, de um barateamento brutal da ideia de diferença, que, se, por um lado, está em consonância com tendências culturais e sociais mais amplas, por outro, gera consequências bem determinadas para a prática da crítica no âmbito das Letras e das Ciências Humanas. [...]
A poética da multiplicidade encontra sua forma mais apurada na aplicação de teorias. Como tudo é plural, como todo antagonismo foi suprimido (fora [...] o antagonismo contra o antagonismo, ou antibinarismo binário), qualquer texto pode ser lido segundo qualquer teoria. Como tudo é dialógico, não importa se você usa Badiou, Barthes, Bataille, Baudrillard, Bhabha, Bourdieu ou Butler (para ficar só no “B”), para o drama renascentista, a épica do século 17, ou o verso livre do 20. No fundo, o verbo “usar” já diz tudo, porque esse tipo de relação entre literatura e teoria é essencialmente utilitário.
Determinados autores, como Bakhtin e Benjamin, são tão explorados, são inseridos em debates tão absolutamente díspares, que vale a pena perguntar se ainda faz algum sentido mencionar seus nomes. E é um fenômeno curioso que, se, por um lado, à crítica da multiplicidade vem questionando o cânone literário, desafiando seu fechamento e reivindicando a inserção de novas vozes, por outro, a teoria vem testemunhando a formação de um cânone próprio, um rol de autores que se tornaram referência obrigatória (inclusive para as novas vozes), cujos conceitos podem, sim, ser problematizados, mas não sua posição a priori como grandes nomes.
Disponível em: <http;/ revistacult.uol.com.br>. Acesso em: 17 ago. 2014 (adaptado).
Sobre a poética da multiplicidade, avalie as afirmações a seguir.
I. A multiplicidade é uma característica só recentemente incorporada pelo texto literário.
II. Há um confronto e, no mesmo momento, um restabelecimento do cânone literário.
III. Uma determinada teoria é capaz de abarcar todas as possibilidades de um texto literário.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 25
Entre os conteúdos que fazem parte da trajetória acadêmica do graduando em Letras, destacam-se os níveis de análise da língua, os quais permeiam os estudos de aquisição da língua materna e tornam-se, portanto, referência básica nos estudos da linguagem.
SCARPA, E. M. Aquisição da Linguagem. ln: MUSSALIN, E; BENTES, A. C. (ores.).
Introdução à linguistica. São Paulo: Cortez, 2001 (adaptado).
Nesse contexto, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.
I. Nos estudos sobre aquisição da língua materna, a aquisição do sistema entonacional, da acentuação e da estrutura silábica pertence ao nível fonológico, entretanto, tais processos contribuem para o desenvolvimento dos níveis morfológico, sintático, semântico e pragmático, embora sejam estudados separadamente.
PORQUE
II. Os níveis de análise da língua estabelecem redes de relações entre si e, portanto, o estudo do funcionamento de cada nível, de forma estanque, deve ser considerado um critério meramente metodológico.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.
A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
E) As asserções I e II são proposições falsas.
ENADE 2014 - QUESTÃO 26
Em relação ao uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) na leitura e na escrita, assinale a opção correta.
A) os leitores da atualidade descartaram os materiais impressos em prol das facilidades dos repositórios digitais, como os tablets, que dinamizam os processos da leitura e da escrita.
B) A leitora e a escrita tornaram-se mais acessíveis devido às tecnologias digitais, as quais provocaram distanciamento de textos impressos e instauraram o “internetês” como linguagem oficial.
C) A diminuição das distâncias espaciais e temporais intensificou e diversificou os modos de comunicação e informação, flexibilizando a formação de leitores de modo mais abrangente e superficial.
D) Os avanços tecnológicos promoveram mudanças significativas nos modos de ler e escrever, favorecendo, principalmente no ato da leitura, a capacidade de unir diferentes linguagens para a construção da significação.
E) As mudanças proporcionadas pela tecnologia nas maneiras de ler, de produzir e de fazer circular textos nas sociedades desconsideram não só outras formas de ler e escrever, mas também outros suportes de circulação.
ENADE 2014 - QUESTÃO 27
Considerando essa conversa via celular, extraída do de um aplicativo de bate papo, avalie as afirmações a seguir.
I. Verifica-se a predominância do estrangeirismo na linguagem empregada nas interações.
II. A pontuação nas falas de Nana, Filé e Paul atende às regras da linguagem empregada na escrita tradicional.
III. As falas de Paul e Filé apresentam características da linguagem digital, a exemplo da escrita fonológica e do uso da abreviação.
IV. A linguagem empregada nas interações apresenta características do gênero digital.
É correto apenas o que se afirma em
A) I e II.
B) II e IV.
C) III e IV.
D) I, II e III.
E) I, III e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 28
A cada um minuto, quatro coisas vendem
Considerando a estrutura sintática e o valor semântico desse slogan publicitário, avalie as afirmações a seguir.
I. Ao introduzir o pronome “se” no slogan — A cada 1 minuto, quatro coisas se vendem —- o único valor semântico possível é o de uma construção passiva.
II. O valor semântico do slogan corresponde ao de uma construção passiva, embora não se verifiquem os padrões sintáticos descritos na tradição gramatical — voz passiva sintética e voz passiva analítica.
III. Em vende-se casas, verifica-se uma construção passiva com presença de sujeito paciente, embora não se observe a concordância verbal exigida pelo padrão gramatical.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 29
Diferentemente dos estudos linguísticos hegemônicos nos séculos XVII e XVIII, que abordavam a língua como uma realidade estável, atemporal e organizada segundo princípios da lógica (assumidos como necessariamente universais e não históricos); e diferentemente do pensamento linguístico predominante no século XIX, que enfocava a língua como uma realidade em transformação, entendendo a ciência da linguagem como apenas e necessariamente histórica, Saussure estabeleceu que o estudo linguístico comportava, na verdade, duas dimensões: uma histórica (chamada diacrônica) e outra estática (chamada sincrônica).
Na primeira, o centro das atenções são as mudanças por que passa uma língua no tempo; na segunda, são as características da língua vista como um sistema estável num espaço de tempo aparentemente fixo. Em outras palavras, pode-se dizer que o pressuposto da análise diacrônica é a mutabilidade das línguas no tempo, enquanto o pressuposto da análise sincrônica é a relativa imutabilidade das línguas.
FARACO, C. A Linguística histórica: uma introdução ao estudo da história
das línguas. 2 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p.95 (adaptado).
A partir da leitura do texto, avalie as afirmações a seguir.
I. É característica da atual sincronia do português brasileiro a variação fonológica do /r/ final de sílaba, que pode ser realizado de maneira aspirada (variante carioca) ou como uma vibrante simples (variante paulista). Essa distinção não poderia ser explicada se utilizados os pressupostos dos estudos de linguagem produzidos nos séculos XVII e XVIII, pois o enfoque desses estudos não recobria a heterogeneidade regular e constitutiva das línguas.
III. São fenômenos históricos de mudança linguística: o verbo clamare, do latim, deu origem aos verbos llamar, do espanhol, e chamar, do português. O substantivo clave, do latim, deu origem aos substantivos llave, do espanhol, e chave, do português. Essas mudanças, de caráter diacrônico, poderiam ser explicadas se utilizados os pressupostos dos estudos de linguagem produzidos no século XIX, essencialmente voltados para a história das línguas.
III. São fenômenos sincrônicos de variação lexical: as palavras abóbora e jerimum designam o mesmo alimento, assim como as palavras soga e corda designam o mesmo objeto; o primeiro elemento de cada par é a forma comumente empregada no sul do Brasil, enquanto o segundo é a forma comumente empregada no nordeste do país. Essas diferenças poderiam ser explicadas se utilizados os pressupostos dos estudos de linguagem produzidos a partir do século XX, por abarcarem a investigação de recortes temporais específicos da realidade linguística.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 30
Entre as perspectivas teóricas e analíticas que têm buscado compreender o funcionamento da linguagem, em seus diferentes níveis, tem-se destacado, no cenário brasileiro, a Análise de Discurso (AD). Essa postura teórica adquiriu contornos diferenciados em sua constituição, desdobrando-se em Análise de Discurso de linha francesa, a qual privilegia o contato com a História, e em Análise de Discurso anglo-saxã, que enfatiza o contato com a Sociologia. Para a reflexão aqui proposta, as afirmações fazem referência à Análise de Discurso francesa.
Texto 1
A Análise de Discurso tal como a conhecemos no Brasil - na perspectiva que trabalha o sujeito, a história, a língua — se constitui no interior das consequências teóricas estabelecidas por três rupturas que estabelecem três novos campos de saber: a que institui a Linguística, a que constitui a Psicanálise e a que constitui o Marxismo. Com a Linguística, ficamos sabendo que a língua não é transparente; ela tem uma ordem marcada por sua materialidade que lhe é própria. Com o Marxismo, ficamos sabendo que a história tem sua materialidade: o homem faz a história, mas ela não lhe é transparente. Finalmente, com a Psicanálise, é o sujeito que se coloca como tendo sua opacidade: ele não é transparente nem para si mesmo. E isto acontece nos anos 60 do século XX, momento em que a leitura suscita questões a respeito da interpretação. Abre-se aí um lugar teórico para a Análise de Discurso, uma disciplina de entremeio que busca compreender o que o ato de ler significa, se distanciado, portanto, da análise de conteúdo, na qual se procura extrair sentidos do texto, tentando responder o que o texto quer dizer.
ORLANDI, E. Análise de discurso. In: ORLAND), E ; LAGAZZI-RODRIGUES, S.
(orgs) Introdução às ciências da Linguagem: discurso e textualidade.
Campinas: Pontes, 2006, p. 11-42 (adaptado).
Texto 2
Enquanto seres humanos somos seres históricos, simbólicos e sociais. Ao considerar o sujeito, o sentido, comecei a me interessar, criticamente, pelo processo dessa identidade, assim como pelo modo como os sentidos eram constituídos. Para isso, tinha de mostrar que a gente precisa atravessar a interpretação para chegar à compreensão do discurso. Na interpretação, somos pegos pelas evidências já construídas, ao sabor das quais nos relacionamos com nossa realidade, imaginária. Com a compreensão, não ficamos nos produtos, mas conhecemos os processos de produção, a historicidade em sua materialidade contraditória, concreta, que atingimos analisando a materialidade discursiva.
Disponível em: <http://redeglobo.globo.com>. Acesso em: 17 jul. 2014 (adaptado).
Considerando os textos acima, avalie as afirmações a seguir.
I. A Análise de Discurso se institui como uma escuta particular que tem como característica trabalhar com sentidos ou sujeitos idealizados; assim, o que interessa no discurso é a sua forma abstrata, desvinculada de seu processo de produção.
II. A análise de conteúdo e a Análise de Discurso procedem de forma semelhante nos processos de interpretação e compreensão dos textos, fixando seus procedimentos de análise no que é inteligível e interpretável
III. A articulação de três áreas (Linguística, Psicanálise e Marxismo) nos estudos do discurso resultou, nos anos 60, em uma posição crítica em relação à noção de leitura e interpretação, a qual problematizava à relação do sujeito com o sentido.
IV. A Análise de Discurso, como teoria de leitura que visa a explicar como um texto funciona, trabalha à relação entre sujeito, história e língua; nessa perspectiva, compreender é saber como um objeto simbólico (enunciado, texto, pintura, música etc) produz sentidos.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) III e IV, apenas.
D) I, II e IV, apenas.
E) I, II, III e IV.
ENADE 2014 - QUESTÃO 31
Não sendo um meio de conhecimento ou informação, a literatura expeliu de seu âmbito o jornalismo, a história, a filosofia. Para a poética neoclássica, os gêneros literários eram todas as manifestações da atividade intelectual, possuíam um sentido amplo e sua classificação era exaustiva. Mas, a duras penas, a literatura libertou-se das outras atividades. E isso depois que a ciência estética, a partir do Século XVIII, se desenvolveu, passando pela polêmica romântica acerca dos gêneros literários e pelas restrições de Croce.
Em nosso tempo, as teorias poéticas, não aceitando, embora, o negativismo croceano, tampouco se deixaram reverter à tradição neoclássica. Repelem, pois, o sentido lato, amplo, reduzindo os gêneros literários àqueles de cunho estritamente literário, isto é, os gêneros narrativos da ficção e epopeia, os gêneros dramáticos, líricos e ensaísticos, fechando a porta a tudo o mais que não seja produto da imaginação e vise a objetivos de conhecimento, investigação, informação, análise.
COUTINHO, A. Notas de teoria literária. Rio de Janeiro: Vozes, 2008, p.92 (adaptado).
A partir da relação entre crítica literária e literatura estabelecida no texto acima, avalie as afirmações a seguir.
I. Acrítica literária é uma atividade intelectual reflexiva cuja matéria-prima é o fenômeno literário.
II. A crítica literária não possui um campo de atuação que lhe é próprio; por isso, transita por diversos setores da cultura e das ciências.
III. A crítica literária constitui-se no desenvolvimento de todas as forças intelectuais de um povo: é o complexo de suas luzes e civilização; é a expressão do grau de ciência que ele possui; é a reunião de tudo quanto exprime a imaginação e o raciocínio pela linguagem.
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 32
O meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita. A quem? Não me queira ingênuo: nome de ninguém não. Me chame como quiser, fui consagrado a João Evangelista, não que o meu nome seja João, absolutamente, não sei de quando nasci, nada, mas se quiser o meu nome busque na lembrança o que de mais instável lhe ocorrer. O meu nome de hoje poderá não me reconhecer amanhã. Não soldo à minha cara um nome preciso.
NOLL, . 6. A fúria do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p.9.
O caráter anticanônico e contemporâneo da linguagem literária no trecho do romance de João Gilberto Noll se justifica pelo(a)
A) investigação dos conflitos do homem frente às pequenas misérias e frustrações do cotidiano.
B) promoção da dúvida entre o dever, o desejo e a revelação surpreendente de uma identidade.
C) decorrência de o narrador desenvolver seu romance em terceira pessoa, seguindo o modelo inovador machadiano.
D) resultado de o narrador apresentar o protagonista com seus costumes sociais e com suas peculiaridades linguísticas.
E) fato de o narrador não nomear o protagonista de seu romance e narrar suas trajetórias sem origem, itinerário ou destino.
ENADE 2014 - QUESTÃO 33
Texto 1
Ainda quando se defende a existência de “uma escrituralidade literária”, herdeira, em certo sentido, do conceito de “literariedade”, utilizado pelos formalistas russos, a questão da especificidade do discurso literário esbarra em entraves complicados e quase sempre obriga o estudioso a trilhar caminhos que podem desviá-lo do seu objeto de análise. Isso explica, por exemplo, a possibilidade de haver excelentes teóricos da literatura que sejam incapazes de ser leitores “desarmados” de literatura; que possam deixar de lado a teoria e “entrar no texto”, confundir-se com personagens que transitam no palco literário. Se, de fato, parece ser problemático definir literatura pelo que ela é — e sua existência está comprovada por uma tradição e pela multiplicidade de obras que mantêm viva essa tradição -, talvez seja mais prudente concordar com a existência de um “estatuto do literário” que, por vezes, se vale de critérios externos ao texto mais do que de uma observação minuciosa de sua produção.
Disponível em: <http://uww. pucminas.br> Acesso em: 28 jul. 2014 (adaptado).
Texto 2
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente. Tristeza esparsa... remorso vão.
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
(Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.Eu faço versos como quem morre.
BANDEIRA, M. A cinza das horas. 1917.
A partir dos textos citados, assinale a opção que apresenta a relação entre a especificidade da linguagem literária e a crítica literária.
A) Apartir de leituras críticas do poema de Manual Bandeira, é possível fruí-lo melhor, pois a crítica literária não deixa nada descoberto.
B) Os critérios de classificação propostos pela crítica e pelos teóricos da literatura permitem ao leitor uma fruição mais prazerosa do poema de Manuel Bandeira
C) Para facilitar a leitura e permitir fruição estética mais intensa ao leitor, os críticos literários mostram a morfologia do texto e as armadilhas que constituem a sua estrutura.
D) A crítica literária, por não apontar caminhos precisos do processo de leitura do texto, é ineficaz para a fruição e interpretação do poema de Manuel Bandeira.
E) Para que possa fruir esteticamente o poema de Manuel Bandeira, é necessário que o leitor articule sua experiência de mundo com seus conhecimentos sobre a literatura.
ENADE 2014 - QUESTÃO 34
Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo.
Posto que lá na Rua do Hospício os seus negócios não corressem mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do vendeiro “aquele tipo! um miserável, um sujo, que não pusera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa com uma negra!”
À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito.
E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado às torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos que lhe faziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito, enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito.
Tinha inveja do outro, daquele outro português que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser mais rico três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa!
AZEVEDO, A. O Cortiço. São Paulo: Ática, 1997.
Com base no excerto acima e na obra de que foi extraído, o romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, avalie as afirmações a seguir quanto à filiação dessa obra ao movimento naturalista.
I. O personagem Miranda confronta-se com uma dimensão humana, marcada pela animalidade e pela biofisiologia.
II. Na descrição da propagação do cortiço são desprezados detalhes e os personagens estão emsegundo plano.
III. A forma e a gramaticalidade são desconsideradas, em prol de um estilo descomedido, sobretudo, no uso de advérbios,
É correto o que se afirma em
A) I, apenas.
B) III, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
ENADE 2014 - QUESTÃO 35
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico.
Nesta perseguição do acidental, quer num flagrantede esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado, o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
SABINO, F. A última crônica. In: A Companheira de Viagem. São Paulo:
Record, 1998, p. 174 (adaptado).
A crônica literária é tangenciada pelo recurso da metáfora e, por isso, mantém contatos fronteiriços com a poesia. Nela são utilizados, geralmente, elementos associados à memória, à imaginação e à criação artística.
Considere os excertos a seguir extraídos do texto de Fernando Sabino.
I. “torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.”
II. “recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano.”
III. “Não sou poeta e estou sem assunto.”
Apresenta(m) marcas da linguagem poética o(s) excerto(s)
A) I, apenas.
B) III, apenas.
C) I e II, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.




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