PUC-RJ: Tendo como referência a leitura comparativa dos Textos IV e V, determine a concepção da natureza brasileira presente em ambos

Texto V E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma v...
Texto V

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta à outra da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a língua; o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e saíam: a máquina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, naquele limiar de granito, onde ela, tantas vezes, com a cabeça encostada ao ombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar. E Jerônimo não aparecia.

Ela ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.

E maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancólicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como os deste inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, como em cada flor que desabotoa e em cada moscardo que adeja há um vírus de lascívia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouvia em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava pelas florestas a anta feia e terrível, quebrando árvores; lá a sucuruju não chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando a morte, nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciúme de um capoeira; lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que à tarde levanta para o céu de opala o seu olhar humilde, compungido e bíblico.
AZEVEDO, Aluísio de. O cortiço.
São Paulo: Ática, 1999, p.158.

QUESTÃO 05
PUC-RJ:

a) Tendo como referência a leitura comparativa dos Textos IV e V, determine a concepção da natureza brasileira presente em ambos.

b) A partir da leitura dos Textos IV e V, determine o estilo de época a que cada um deles pertence.

QUESTÃO ANTERIOR:
PUC-RJ: O Texto III problematiza a naturalização dos seres humanos. Explique a finalidade desse procedimento no texto.

GABARITO:
a) No Texto IV, a concepção é da natureza idílica, idealizada. No Texto V, a natureza aparece sob o prisma do determinismo, por influenciar o comportamento das personagens, apresentando-se como a maldição dos trópicos.

b) Romantismo e Realismo/Naturalismo.

PRÓXIMA QUESTÃO:
- PUC-RJ: Considere a sequência de bases nitrogenadas do RNA mensageiro de um gene que codifica uma determinada proteína.

QUESTÃO DISPONÍVEL EM:
Prova PUC-RJ 2019.1 com Gabarito

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