FATEC 2003: Considere as seguintes afirmações sobre Dona Inácia

Leia o  Texto II  para responder às questões de números  41  a  46 . TEXTO II – NEGRINHA Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Nã...
Leia o Texto II para responder às questões de números 41 a 46.

TEXTO II – NEGRINHA

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta?

Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma – "dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral", dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

– Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão?

O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

– Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem* pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha – magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiamlhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

– Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

– Braços cruzados, já, diabo!
(Monteiro Lobato)
(*) Forma do verbo "entanguir", que significa enregelar, endurecer de frio

QUESTÃO 41
FATEC 2003: Considere as seguintes afirmações sobre Dona Inácia.

I. Na seqüência, é caracterizada como "excelente senhora", "ótima, a dona Inácia" e "boa senhora". Essa gradação dos adjetivos, no conjunto do texto, permite concluir que o narrador vai diminuindo as qualidades da senhora, à medida que apresenta suas ações ao leitor.

II. A caracterização dessa personagem resulta da combinação de vários pontos de vista sobre ela e expõe um jogo entre o parecer (o que ela aparenta ser, para alguns) e o ser (o que ela é, para outros).

III. O narrador trata a personagem com ironia, porque de fato rebaixa suas qualidades ao caracterizá-la como "gorda" e "rica", embora reconheça que ela é "virtuosa".

Deve-se afirmar que

a) apenas a I está correta.
b) apenas I e II estão corretas.
c) apenas I e III estão corretas.
d) apenas II e III estão corretas.
e) I, II e III estão corretas.

QUESTÃO ANTERIOR:

RESOLUÇÃO (Cursos Objetivo):
A afirmação I é imprecisa. Ela pode ser considerada verdadeira, embora não haja gradação entre excelente e ótima, já que, segundo o Dicionário Houaiss, o sentido de excelente é "que excele; que é de ótima qualidade; que é muito bom" e o de ótimo, "que ou o que existe de melhor, que é demasiadamente bom; boníssimo, excelente".

Mas é indiscutível que há gradação entre esses dois adjetivos, que são superlativos, e o que indica a mesma qualidade em um grau normal – boa. Embora se possa, assim, "salvar" a afirmação I e, pois, este teste, não há como fugir ao fato de que no texto o narrador não "vai diminuindo as qualidades da senhora, à medida que apresenta suas ações ao leitor"; ele só diminui tais qualidades no último adjetivo.

Outra imprecisão está, na afirmação II, no adjetivo "vários", que deveria ser substituído por dois, pois o autor não caracteriza a senhora senão de dois pontos de vista opostos: o da consideração social a ela atribuída e o de suas ações para com seus subordinados.

Ainda assim, pode-se admitir II como correta. Em III, o erro está, não na afirmação de ironia, pois o texto é irônico, mas na interpretação de que o autor rebaixa as qualidades da figura descrita "ao caracterizá-la como ‘gorda’ e ‘rica’", pois esses adjetivos, no contexto, não são ainda pejorativos nem devem ser contrapostos ao reconhecimento de que ela seja "virtuosa".

GABARITO:
b) apenas I e II estão corretas.

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