FAMERP 2021: Os termos sublinhados estão empregados, respectivamente, em sentido

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Considere a crônica “Iniciativa”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder às questões de 02 a 06.

É sina de minha amiga penar pela sorte do próximo, se bem que seja um penar jubiloso. Explico-me. Todo sofrimento alheio a preocupa, e acende nela o facho da ação, que a torna feliz. Não distingue entre gente e bicho, quando tem de agir, mas como há inúmeras sociedades (com verbas) para o bem dos homens, e uma só, sem recursos, para o bem dos animais, é nesta última que gosta de militar. Os problemas aparecem-lhe em cardume, e parece que a escolhem de preferência a outras criaturas de menor sensibilidade e iniciativa.

Os cães postam-se no seu caminho, e:
— Dona, me leva — murmuram-lhe os olhos surrados pela vida mas sempre meigos.
Outro dia o cão vinha pela rua, mancando, amarrado a um barbante e puxado por um bêbado pobre, mas tão bêbado como qualquer outro. Com o aperto do laço, o infeliz punha a alma pela boca. E o bêbado resmungava ameaças confusas.

Minha amiga aproximou-se, com jeito.
— Não faça assim com o pobrezinho, que ele sufoca.
— Faço o que eu quero, ele é meu.
— Mas é proibido maltratar os animais.
— Eu não vou maltratar. Vou matar com duas navalhadas.
Minha amiga pulou como Ademar Ferreira da Silva¹:
— Me dá esse cachorro.
— Dar, não dou, mas vendo.

Dez cruzeiros selaram o negócio, e, livre do barbante, o cachorro embarcou no carro de minha amiga. Felizmente, anoitecia — e ela penetrou no apartamento, sem impugnação do porteiro. Que prodígios não faz para amortecer o latido dos hóspedes, lá dentro! (Uma vez, ante a reclamação do vizinho, explicou que era disco de jazz.) Já havia três cães instalados, não cabia mais. Tratou do bicho, chamou-lhe veterinário, curou-lhe a pata, deu-lhe vitamina e carinho. Só depois começou a providenciar uma casa de confiança para ele. Seu método consiste numa conversa mole com a pessoa: tem cachorro em casa? Por que não tem mais? Fugiu? Morreu de velho? (Se o cão fugiu, o dono não presta.) Conforme a ficha da pessoa, minha amiga lhe oferece o animal, ou não, e passa adiante.

Desta vez o escolhido foi José, contínuo de autarquia (não carece ser rico, mas bom, paciente, bem-humorado). José tem crianças, espaço cercado e vocação para dedicar-se. Minha amiga ofereceu-se para levar o cachorro ao longe subúrbio, José disse que não precisava, ela insistiu, ele idem. Afinal foram juntos, o carro subiu ladeira, desceu ladeira, e no alto do morro desvendou-se a triste casa de José, que não era casa cercada, era um corredor de cabeça de porco², com cinco crianças, mulher e sogra de José empilhadas.

Minha amiga compreendeu. José era mais pobre do que o cachorro e sem um mínimo de dinheiro não se compra ar livre e espaço para brincar. Seria cruel dizer a José: “Volto com o cachorro”. Felizmente o animal salvou a situação, tentando morder um dos garotos que lhe fizera festa. Minha amiga iluminou-se: “Está vendo, José? Ele não se acostuma. Vou te trazer outro, novinho”. José, desolado, aquiesceu. Minha amiga saiu voando para a cidade, entrou numa dessas casas onde se martirizam animais à venda, e resgatou o menor dos cachorrinhos recém-nascidos, que já penava numa jaula sem água e alimento, a um sol de fogo. “Para este, qualquer coisa é negócio, e melhora a vida.” Levou-o rápido, para José, que o recebeu de alma embandeirada.

Agora, minha amiga tem dois problemas: arranjar um dono para o cachorro do bêbado, e dar um jeito nos cinco filhos de José. Mas resolve, não tenham dúvida.
(70 historinhas, 2016.)
¹Ademar Ferreira da Silva: atleta brasileiro, primeiro bicampeão olímpico do país; conquistou as medalhas de ouro no salto triplo nos Jogos de Helsinque 1952 e de Melbourne 1956.
²cabeça de porco: cortiço.

QUESTÃO 04
•  “Os problemas aparecem-lhe em cardume, e parece que a escolhem de preferência a outras criaturas de menor sensibilidade e iniciativa.” (1º parágrafo)

•  “Uma vez, ante a reclamação do vizinho, explicou que era disco de jazz.” (11º parágrafo)

•  “Minha amiga iluminou-se: ‘Está vendo, José? Ele não se acostuma. Vou te trazer outro, novinho’.” (13º parágrafo)

FAMERP 2021: Os termos sublinhados estão empregados, respectivamente, em sentido

(A) figurado, literal e literal.
(B) figurado, figurado e literal.
(C) literal, literal e figurado.
(D) literal, figurado e figurado.
(E) figurado, literal e figurado.

QUESTÃO ANTERIOR:

RESOLUÇÃO (Cursos Objetivo):
O coletivo “cardume”, que se refere a peixes, foi empregado em sentido figurado para referir-se ao grande número de “problemas” que surgem para pessoas sensíveis e proativas. “Reclamação” foi empregada em sentido literal, cujo significado é “queixa, objeção”. Em “iluminou-se”, o sentido é conotativo, ou figurado, porque refere-se ao estado de júbilo da personagem porque a situação criada favoreceu-a.

GABARITO:
(E) figurado, literal e figurado.

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QUESTÃO DISPONÍVEL EM:

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