UEM 2020: Em relação a elementos linguísticos presentes no texto, assinale o que for correto

TEXTO

Um terço dos brasileiros desconfia da ciência
(Mariana Varella)

Karl Popper, nascido em 1902, na Áustria, foi um
dos maiores filósofos da ciência do século 20. Ficou
muito conhecido por questionar os preceitos
positivistas da época, que viam na observação o
caminho para se chegar ao conhecimento científico.
Para Popper, a pura observação dos fenômenos não era
suficiente para garantir que determinada situação se
repetiria sempre.

Em um de seus exemplos mais célebres, o filósofo
afirmou que, mesmo observando milhares de cisnes
brancos, era impossível assegurar que todos os cisnes
são brancos, pois bastaria surgir um único cisne negro
para derrubar o preceito. Assim, observações
particulares não poderiam ser generalizadas, e a
simples observação de um fenômeno não provaria sua
verdade absoluta. Era preciso primeiro formar uma
hipótese baseada, também, na intuição, para depois
comprovar sua consistência por meio do método
científico.

O mundo mudou muito desde a época do filósofo.
Hoje, basta uma pessoa relatar um fenômeno nas redes
sociais para que ele seja considerado fato. Estabelecer
relações de causa e efeito com base em histórias
pessoais não é novidade, mas a velocidade com que
elas se espalham atualmente é surpreendente.

Se antes apenas os conhecidos da tia do vizinho
ficavam sabendo que a senhora supostamente teria se
curado de câncer de estômago com um chá, agora a
história pode atingir milhares de pessoas em pouco
tempo. E fazer um tremendo estrago, gerando não
apenas curiosidade acerca do “medicamento”, mas
dando origem a toda sorte de boatos e
questionamentos. [...]

A pesquisa Wellcome Global Monitor 2018, feita
pelo Instituto Gallup e divulgada no primeiro semestre
de 2019, representa o maior estudo mundial sobre a
forma como as pessoas pensam a ciência e os
principais desafios da área da saúde. Os pesquisadores
entrevistaram 140 mil pessoas, entre elas mil brasileiros
com mais de 15 anos. No ranking dos 144 países
participantes, o Brasil ocupa apenas a 111.ª posição
entre os que mais confiam na ciência.

Para 35% dos brasileiros, a ciência não merece
confiança, e 1 em cada 4 pessoas acha que a produção
científica não contribui para o país.

Para a matemática, filósofa e professora Tatiana
Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as
pessoas não veem o resultado da contribuição científica
em sua vida cotidiana, já que muitos cientistas
costumam se isolar e têm dificuldade de comunicação.
“Ultimamente, há um nítido aumento da preocupação
dos cientistas em se comunicar melhor com a
sociedade, mas ainda é um movimento incipiente”,
afirma Roque. Sem conhecer os resultados das
pesquisas científicas e com pouco ou quase nenhum
contato com quem a produz, a população não
vislumbra seus benefícios e tampouco desenvolve uma
relação de confiança com a ciência.

Por outro lado, a necessidade de mostrar resultados
pode comprometer a autonomia, essencial para que a
ciência prospere. Foi a liberdade em relação ao Estado
e à indústria que permitiu o desenvolvimento de
pesquisas e das próprias ciências. Se houvesse apenas
ciências aplicáveis, o que seriam das Humanas ou de
pesquisas que não pudessem ser diretamente aplicadas?
[...]

Religião

Se cientistas e aqueles que propagam o pensamento
científico falham em comunicar a importância da
ciência, a religião, por sua vez, estabelece uma relação
de proximidade com seus seguidores. A Wellcome
Global Monitor mostrou que 75% dos brasileiros
escolhem sua religião quando esta discorda da ciência.
Considerando que apenas 4% dos entrevistados
disseram não ter religião, é possível afirmar que a
maioria dos brasileiros confia mais na religião do que
na ciência quando há discordância entre ambas.

“O papel das igrejas amplia-se no vácuo deixado
pelas políticas sociais, que vêm abandonando, desde os
anos 1990, a ideia de proteção, de seguridade coletiva,
de direitos do cidadão. Se não podem acreditar nos
valores sociais, só lhes restam os valores individuais,
apoiados pela família tradicional e pela igreja
conservadora. Não acho que a religião seja um
empecilho [para acreditar na ciência]. O que ocorre
hoje é que há um modo de praticar a religião que
estende sua influência a domínios que não costumavam
ser da religião, e sim da política”, conclui Roque.

Portanto, não basta ensinar ciência nas escolas,
embora isso seja muito importante. É necessário que as
pessoas percebam sua importância, que sintam seus
benefícios no dia a dia, aprendam a desenvolver o
pensamento científico e a confiar nele.

Isso não implica, obviamente, refutar outros
saberes e formas de conhecimento; ao contrário, o
excesso de autoconfiança por parte daqueles que
estudam e fazem ciência pode afastar ainda mais as
pessoas que não dominam o conhecimento científico.
Em um momento em que a desinformação e os boatos
ganham as redes sociais e a internet ganha em velocidade
galopante, a ciência pode e deve ser vista como aliada
na luta contra a desinformação.
(Texto adaptado de: https://drauziovarella.uol.com.br/coluna-2/um-tercodos-brasileiros-desconfia-da-ciencia-coluna/. Acesso em: 07 dez 2020.) 

QUESTÃO 29
UEM 2020: Em relação a elementos linguísticos presentes no texto, assinale o que for correto.

01) Na estrutura da palavra “caminho” (linha 5), temos o morfema de grau diminutivo -inho.

02) Em “a pura observação dos fenômenos não era suficiente” (linhas 6 e 7), pode ocorrer o apagamento do item lexical “não” se, diante da expressão “suficiente”, for colocado o prefixo in-.

04) Em “Se antes apenas os conhecidos da tia do vizinho” (linha 26), o advérbio “apenas” continuaria modificando a expressão “os conhecidos da tia do vizinho” mesmo se estivesse imediatamente após a conjunção “se”.

08) Em “a necessidade de mostrar resultados pode comprometer a autonomia” (linhas 60 e 61), o ponto de vista da autora não é expresso de modo categórico por conta do emprego da forma verbal “pode”.

16) Na expressão “ainda mais” (linha 100), se invertêssemos a ordem dos elementos, continuaríamos tendo uma expressão adverbial com valor semântico de intensidade.

QUESTÃO ANTERIOR:

RESOLUÇÃO:
Não temos resolução para essa questão! Você sabe explicar? Copie o link dessa página e envie sua resolução clicando AQUI!

GABARITO:
02-08-16 = 26

PRÓXIMA QUESTÃO:

QUESTÃO DISPONÍVEL EM:

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.