Ao ler, compreender e interpretar o texto, é possível afirmar que a autora:

TEXTO I NASCI EM SÃO BERNARDO DO CAMPO , São Paulo, mas fui criada até os 20 anos em Ribeirão Pires, um município pequeno também no Grande A...
TEXTO I

NASCI EM SÃO BERNARDO DO CAMPO, São Paulo, mas fui criada até os 20 anos em Ribeirão Pires, um município pequeno também no Grande ABC, antes de voltarmos para a minha cidade natal.

Minha mãe é professora; e meu pai, engenheiro eletricista. Juntos, eles conseguiram dar uma vida privilegiada e confortável para os quatro filhos. Nós estudamos em escola pública, mas crescemos podendo fazer inglês, francês, natação, balé, judô. [...] E eles sempre nos apoiaram em tudo, sempre nos incentivaram a realizar nossos sonhos. [...]

Apesar disso, meus pais sempre mostraram para a gente que nós, negros, estamos nas camadas mais periféricas da sociedade. Desde pequena, eu percebia, mas ainda não entendia muito bem, o porquê de a minha mãe nos ensinar a dificuldade de sermos mulheres – e sermos negras. Ela não tinha um discurso feminista, mas de certa forma sempre foi. Ela dizia: “mulheres só se ferram nesse mundo, então vocês se preparem. O mundo é muito desigual, e o mundo é racista”.

Sobre o racismo, minha mãe já tinha um discurso mais concreto. O racismo que existia não era culpa nossa. Ela dizia que a gente não deveria se envergonhar, que a culpa é do racismo, que a culpa foi da escravidão, foi de não haver mudanças estruturais para nós – e que, por isso, somos a maior parte da população pobre, de baixa renda, com pouco estudo, carcerária.

Quando chegou a época de escolher uma faculdade, decidi fazer medicina. Mudei muitas vezes de ideia, nunca soube direito o que queria fazer. Sempre fui péssima com as exatas, porque na escola pública nunca tive bons professores dessas matérias – às vezes nem tinha aula. Escolhi a medicina após fazer um curso técnico em nutrição, já no 3º ano do Ensino Médio, e perceber que gostava da área da saúde. [...] 

Aí você chega na faculdade e é um lugar branco. Eu comecei a ver que tinha muitas salas onde não existia uma pessoa negra, uma pessoa indígena. Não fui bem recebida.

A gente tem sessões de tutoria, onde vários alunos se sentam para discutir sobre casos hipotéticos com a presença de um tutor. É muito difícil eu abrir a boca para falar sobre alguma coisa academicista, sobre alguma pesquisa, e não ouvir ninguém refutando.

Muitas vezes, a função do tutor é mediar, mas os colegas diziam que eu estava errada, e o tutor simplesmente não falava nada. [...] Uma vez eu sentei no chão e travei: não conseguia me mover de tão nervosa que fiquei. Eu sabia que ia ficar ali três, quatro horas, e toda a vez que abrisse a boca iriam me questionar, me refutar, me humilhar. Não importa se é proposital ou não. As pessoas adoram dizer “eu não sabia” ou “não tive a intenção”, mas aí elas já fizeram. O mal já está feito.

O terceiro semestre – um dos mais difíceis, porque começam as aulas práticas de atendimento de pacientes em postos de saúde e hospitais – foi o primeiro que passei direto, sem precisar fazer exames. Veio o quarto semestre, eu fui melhor, mas comecei a me sentir fraca, o corpo pesado, dores no corpo horríveis, não querer fazer coisas que antes me davam prazer. E eu fui começando a ficar mal, e a minha terapeuta falou: “Eu acho melhor você procurar um psiquiatra”.

Fui diagnosticada com depressão grave, precisando ser medicada. [...] Iniciei o tratamento e, agora, que já passou um certo tempo, tenho noção de que a minha depressão grave foi desencadeada pelo racismo institucional da faculdade de medicina. Eu nunca me senti acolhida nos espaços que eu frequentava, porque a minha família há muito tempo insiste em ser negra fora do que os outros pensam ser o espaço do negro.

Nós éramos a única família negra do bairro. Eu e minha irmã éramos as únicas negras do inglês, as únicas negras do francês, as únicas negras da natação, as únicas negras do balé. Nós éramos os únicos negros no shopping que não estavam lá trabalhando, os únicos negros na praia que não estavam vendendo alguma coisa

Mas o racismo não para. Quando tenho aula prática no hospital universitário, preciso mostrar o crachá para comprovar que sou estudante de medicina. Uma colega minha comentou outro dia que há anos não sabe onde o crachá dela está. Ela perdeu. E nunca precisou usar crachá. Eu estou há quatro anos aqui, e há quatro anos sou barrada.

Os seguranças não acreditam que uma mulher preta pode ser estudante de medicina como os outros jovens brancos que eles veem entrando normalmente no hospital. Na visão habitual deles, o negro é o paciente do SUS, e não quem está ali prestando serviço para levar saúde à população. [...] 

A situação da minha família surpreendeu muita gente desde que entrei na faculdade. Nos primeiros semestres, perguntavam muito sobre “qual bolsa” eu recebia para me manter.

Nenhuma. Eu sou cotista, mas existem seis tipos de cotas diferentes. As pessoas acham que, se você é negro, automaticamente é cotista e pobre. Não existe vergonha nenhuma em cota, em bolsa, em nada. São políticas públicas. CNPq é política pública. Capes é política pública. Tanto política pública quanto um bolsa família, tanto política pública quanto cotas. Não é vergonha ser cotista. Mas é racismo não acreditarem que um aluno negro pode ter um bom status social. [...]

Nos quatro anos de faculdade, viajei para diferentes países para apresentar meus trabalhos, visitei minha irmã que mora no Rio de Janeiro, fiz atividades que não condizem com o estereótipo de preto e pobre. Meus colegas demoraram a acreditar que isso era possível. Eles demoraram três anos para acreditarem que eu não estava mentindo. [...]

Eu sou uma pessoa muito destemida, eu não desisto. Não importa que eu caia dez vezes eu levanto 11. Eu fui me aperfeiçoando. Mas pude fazer isso graças ao apoio das pessoas que queriam me ver bem, graças aos meus pais. Eu não teria chegado aqui sem eles.

Durante uma das minhas crises, alguns meses atrás, minha mãe falou algo muito mportante: “Kleriene,[...] Pensa em tudo o que nossos ancestrais foram passando ao longo desses quatro séculos, o teu avô, a nossa bisa, o meu pai, eu, para a gente estar aqui agora, para você ter a oportunidade de estar dentro da universidade”. 

Hoje respondo às situações racistas de forma diferente. Eu consigo lidar melhor com as situações e não me sentir culpada pelo que acontece. Antes, a cada silenciamento, a cada ato racista, eu voltava pra casa chorando e achando que realmente eu não era boa o suficiente. Agora não mais.

A cor da minha pele não define meu QI. Nunca definiu e não vai definir.
SOUZA, Kleriane. Texto adaptado. Disponível em: https://
theintercept.com/2019/04/04/negra-medicina-racismo/.
Acesso em: 24 de jul. 2019.

As questões 1 a 5 estão relacionadas com o texto I

IFBA 2020 - QUESTÃO 01
Ao ler, compreender e interpretar o texto, é possível afirmar que a autora: 

a) destaca as humilhações durante o período em que prestava vestibulares para o curso de medicina.

b) atribui a depressão grave ao racismo institucional, praticado na universidade onde cursa medicina.

c) indica que sofreu racismo ao longo de sua vida escolar até a universidade.

d) afirma que sua mãe é feminista e isto gera dificuldade na sua vida escolar.

e) conta haver sofrido racismo por parte dos funcionários do hospital onde estagiava.

QUESTÃO ANTERIOR:

GABARITO:
b) atribui a depressão grave ao racismo institucional, praticado na universidade onde cursa medicina.

RESOLUÇÃO:
Não temos resolução para essa questão! Você sabe explicar? Copie o link dessa página e envie sua resolução clicando AQUI!

PRÓXIMA QUESTÃO:

QUESTÃO DISPONÍVEL EM:

COMENTÁRIOS

Todas as Postagens Não foram encontradas postagens VEJA TODOS Leia Mais Resposta Cancelar resposta Deletar Por Home PAGINAS POSTS Veja todos RECOMENDADOS PARA VOCÊ Tudo Sobre ARQUIVOS BUSCAR TODOS OS POSTS Nenhuma postagem foi encontrada Voltar para Home Domingo Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Sep Out Nov Dez Agora mesmo 1 minuto atrás $$1$$ minutos agora 1 hora atrás $$1$$ horas atrás Ontem $$1$$ dias atrás $$1$$ semanas atrás mais de 5 semanas atrás Seguidores Seguir CONTEÚDO PREMIUM BLOQUEADO PASSO 1: Compartilhar em uma rede social PASSO 2: Clique no link na sua rede social Copiar todo o código Selecionar todo o código Todos os códigos foram copiados Não é possível copiar os códigos / textos, pressione [CTRL] + [C] para copiar Tabela de conteúdo